
O post de hoje é uma colaboração do meu grande amigo, Gérson Prado. Ele é um leitor voraz, que sempre indica livros excelentes. Foi ele que me apresentou, por exemplo, a Stiege Larsson. Vamos à, resenha!
Se for preciso resumir O Ventre da Baleia (de Javier Cercas) em apenas uma palavra ela será “angustia”. Vou explicar.
Tomás é um catalão, professor auxiliar de Literatura, casado, com a vida estável e sem grandes problemas que possam abalar suas costumeiras siestas vespertinas.
Logo no início do romance ele reencontra uma paixão da adolescência e, o que poderia ter sido apenas uma aventura extraconjugal sem grandes consequências, se torna uma série de eventos tragicômicos que irão mudar por completo sua vida. Até aí nenhuma novidade, você já deve ter visto muitos livros e filmes com este enredo.
Acontece que todos os infortúnios que o personagem irá enfrentar terão uma única origem e culpa: ele mesmo. Não se trata de má sorte ou de atuação de agentes externos, mas sim de consequências diretas de seus inúmeros defeitos. Insegurança, ansiedade, procrastinação, imaturidade, egocentrismo são os principais.
E aí entra a grande sacada do autor: narrar o romance em primeira pessoa, com profundas reflexões e divagações filosóficas que humanizam o protagonista de tal forma e com tamanha profundidade que, quando o leitor não se identifica, identifica pessoas próximas, fazendo com que a cada passo equivocado do atrapalhado docente, tenhamos imensa vontade de pegá-lo pelos colarinhos e lhe dar uma chamada daquelas que teríamos liberdade apenas com irmãos, filhos ou amigões do peito.

A realidade não é outra coisa se não o relato que alguém está fazendo, e, se o narrador desaparece, a realidade desaparecerá com ele. A realidade existe porque alguém a conta. Inventamos constantemente o presente; e ainda mais o passado.
Poucas vezes fiquei tão incomodado com a trajetória de um personagem. Com riqueza de detalhes mas, ao mesmo tempo, com muita fluidez, Javier Cercas fala de relações humanas, ilusões e frustrações de uma maneira interessante e muitas vezes cômica. Recomendo a leitura.
A felicidade não cobra o motivo: ninguém se pergunta porque é feliz; simplesmente é, e basta. Com a desgraça ocorre o contrário: sempre buscamos motivos que a justifiquem, como se a felicidade fosse nosso destino natural, aquilo que nos é devido, e a desgraça, um desvio perverso cujas causas nos esforçamos em vão para desencavar.
Valeu Gé!! Ainda não li O Ventre da Baleia, mas já foi pra minha estante da Antibiblioteca.
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