O Grande Irmão Continua de Olho

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1984 george orwell

O ano era 1948. No limiar do pós-guerra, em um mundo ainda pensando qual caminho tomar frente aos questionamentos do capitalismo, do socialismo e do comunismo, onde cada homem teria que tomar um lado na nova divisão do mundo. Ali George Orwell escrevia sua obra-prima, um dos 100 maiores livros do século XX, e talvez um dos mais atuais até hoje.

1984 de George Orwell. Livro obrigatório para entendermos a história, como ela pode ser manipulada, como ela pode ser reescrita. É assustador como o autor conseguiu escrever algo que até hoje tem reflexos na sociedade. Orwell descreve um mundo dividido em três grandes regiões, onde um governo  (ingsoc – socialismo inglês) domina um desses territórios e implementa o socialismo radical – tão radical que a história é reescrita para estar sempre alinhada a o que o governo quer passar à população.

O personagem principal é Winston Smith, um funcionário do Ministério da Verdade, que é um dos responsáveis por receber revistas, jornais e outras mídias com fatos históricos e modificar essas mídias, para um novo fato. Apagar o passado, reconstruí-lo, modificar a história para que a massa seja manipulada. Ele conduz sua vida pela ordem do partido, porém sabe que algo está errado. Ele vive em seu quarto, tendo que se esconder aos cantos para pensar e escrever.

E em um momento ele conhece Júlia, por quem se apaixona. Ela é uma militante ferrenha do partido, porém no íntimo é uma anarquista que está à procura do amor, da felicidade e da liberdade. É a paixão pela liberdade do casal que os leva a desafiar o partido, através de O’Brien, que se diz um membro da resistência porém é o antagonista do livro, levando Winston e Julia a uma armadilha preparada pelo partido.

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  O Partido procura o poder por amor ao poder. Não estamos interessados no bem–estar alheio; só estamos interessados no poder. Nem na riqueza, nem no luxo, nem em longa vida de prazeres: apenas no poder, poder puro. (…) Somos diferentes de todas as oligarquias do passado, porque sabemos o que estamos fazendo. Todas as outras, até mesmo as que se assemelhavam conosco, eram covardes e hipócritas. Os nazistas alemães e os comunistas russos muito se aproximaram de nós nos métodos, mas nunca tiveram a coragem de reconhecer os próprios motivos. Fingiam, talvez até acreditassem, ter tomado o poder sem querer, e por tempo limitado, e que bastava dobrar a esquina para entrar num paraíso onde os seres humanos seriam iguais e livres. Nós não somos assim. Sabemos que ninguém jamais toma o poder com a intenção de largá-lo. O poder não é um meio, é um fim em si. Não se estabelece uma ditadura com o fito de salvaguardar uma revolução; faz-se a revolução para estabelecer a ditadura. O objetivo da perseguição é a perseguição. O objetivo da tortura é a tortura. O objetivo do poder é o poder.

As pessoas não se lembram do passado, sua infância ou fatos, pois o partido no poder modifica as memórias. E tudo o que existe, ou ocorreu, não são mais do que lembranças, contadas ou documentadas, que estão na cabeça das pessoas. Portanto, se tivermos o poder de modificar a história através da memória, reconstruímos também essa história.

O Grande Irmão aparece no livro como o líder que deve ser venerado e adorado, aquele que está sempre nos observando, sabendo o que fazemos e pensando, e nos torturando para pensar como a massa. Toda uma linguagem foi construída, chamada Novalíngua, com termos como o “duplipensar” que é quando pensamos em algo e sabemos que está errado, porém nos convencemos de que está certo, a “crimideia” que é o crime ideológico, quando se pensa contrariamente ao partido, e a “impessoa” que é uma pessoa que foi apagada das memórias e dos documentos, e passa a não existir mais.

Orwell apresenta suas idéias de sociedade, onde a classe dominante está no poder e faz de tudo para se sustentar lá, apenas pelo poder. A classe média sustenta esse governo, com os trabalhadores dos Ministérios, e a prole é a classe miserável, grande maioria, que vive “sem pensar”, sustentada pela divisão de rações e pela diversão. Quando a classe média se revolta e assume o poder, ela se torna a classe dominante e o próprio Grande Irmão, e parte da prole a classe média, iniciando novamente o ciclo de poder.

Além disso, também a idéia da guerra como forma de manipular e manter o controle e o poder sobre a população, e não tem por objetivo vencer um inimigo, ou lutar por uma causa. O objetivo da guerra é o controle dos recursos, da educação, alimentação, bens e riquezas. A partir do momento que a prole e a classe média conseguem viver em paz e produzir mais riqueza, passam a ser uma ameaça à classe dominante.

Guerra é paz.

Se olharmos para os fatos que ocorrem hoje no Brasil, as manifestações, as lutas para o impeachment, a corrupção, toda a guerra pelo poder declarada entre os partidos políticos, as ideologias cegas e as lutas entre as “verdades”, os lemas de conhecer a história ou não vai ter golpe, 1984 está ainda mais atual. A grande corrupção do homem é pelo poder, e somente pelo poder. E pelo poder ele faz qualquer coisa.

Não nos deixemos enganar pela ideologia, manipular pela mídia nem pelos poderosos. Não assumamos um lado a guerra. Digamos não à violência e à intolerância. Porém temos que nos posicionar, firmes, contra a manipulação do poder e a corrupção. É triste constatar que a luta pelo poder vale qualquer esforço, e os trabalhadores e produtores são apenas levados como massa de manobra, em favor daqueles que querem nos dominar. Lembremos que as leis são construídas e existe uma grande distancia entre o que é legal e o que é ético. Em 1984, a lei permitia mudar a história e manipular os fatos. E em 2016?

O Grande Irmão está observando você.

Minha avaliação:
Facilidade de leitura: Médio
Tamanho: Médio
Aplicabilidade: Alto

Está disponível em diversas línguas, inclusive português, em meios digitais, físicos e em áudio.

Para sua antibiblioteca, recomendo também:
A revolta de Atlas, de Ayn Rand
Admirável Mundo Novo, de Aldous Leonard Huxley

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